Ria da Minha Vida 2 Antes Que Eu Volte a Rir da Sua
E
por incrível que pareça... não foi a última
gota
...
No meio dessas minhas conclusões, continuava pensando por
que Deus tinha me castigado. E ainda estava em greve com Ele, como
forma de represália por causa da cacetada que levei na porta
da casa da Débora. "Noiva? Como assim noiva? Mas já!?"
– pensava triste.
Não
havia uma explicação lógica para aquilo...
Noites e noites adentro, permanecia sentado em minha cama até
o dia amanhecer. Pensava no que fazer e como evitar o pior. Mas
uma tristeza e mágoa profundas para com ela me fazia cair
de costas na cama, de braços abertos. Olhava para o teto
do quarto me sentindo desorientado e derrotado.
Sem
forças para agir, traído por todas as promessas, cartas,
sonhos e amor que ela me deu e arrancou sem hesitação,
não sabia ao certo se realmente deveria fazer alguma coisa
para impedi-la. Sentia-me abandonado por Deus. Somente dormia quando
o cansaço e estafa superavam meus pensamentos. Com a dor
da notícia, não conseguia me concentrar em mais nada.
Pensei
também, que se um dia a Débora realmente se casasse,
eu iria sozinho na frente da igreja com uma banda e faixas de congratulações.
Sentaria em um jegue fantasiado de Drácula (ou fada) e a
aplaudiria assim que saísse da igreja. E, depois, soltaria
um rojão comemorativo, dando o sinal para a banda começar
a tocar, desafinada, algum pagode. Ela merecia.
Passava
o dia perdido em pensamentos como esse, triste, durante horas olhando
para o infinito com a mente vazia...
Dois
meses depois da "grande notícia", meus amigos tentaram
me animar convidando-me para uma festa em Campinas.
Eu
havia apresentado a eles algumas meninas que conhecera por acaso
em mais uma Feira do Automóvel qualquer. Estavam todos empolgados.
Uma delas parecia estar interessada em mim e acabei indo. Ao contrário
de todos, estava triste e desanimado.
No
meio da festa, mais ou menos às duas da madrugada, comecei
a me animar. A garota rebolava e se mostrava tanto que não
pude deixar de prestar atenção. Peguei minha bebida
e fiquei fingindo que estava dançando, como todos os outros
homens.
Meus
amigos estavam espalhados por todos os lados e cada hora passava
um em estado pior que o outro, agarrados às meninas. Comecei
a me mexer forçado para cá e para lá. Após
duas longas horas, quase às quatro da madrugada, esbocei
o primeiro sorriso para minha pretendente, que passava as mãos
na cintura me provocando.
Mas
alguém, inesperadamente, tocou meu ombro esquerdo. Ao me
virar, para minha surpresa era o Laurindo (aquele vizinho da Débora
que me ajudou a pendurar a faixa):
—
Oi Evandro!! Quanto tempo, amigão! – cumprimentou abraçando-me.
—
Oi! Como você está?! Tudo bem? – respondi, sorrindo
pela segunda vez em dois meses.
—
Eu estou bem! – e dando risada, perguntou-me — Sabe
da última?
—
Não, o quê? – perguntei curioso.
—
A Débora se casou...
CASOuouououououommmmmmmmm...
Ouvi
somente o eco da voz dele. Tudo embaralhou-se com a música
ambiente. Dei uns três passos para trás. O Laurindo
pareceu ficar como um anão e perguntei zonzo:
—
Quêêê?!
—
É, amigão... E ainda foi com aquele garotinho esquisito
mesmo, hehehe!! Casou-se a semana passada, acho.
...Entrei
em um redemoinho sem fim.
Dei
meu copo de cerveja para ele segurar e disse que precisava ir ao
banheiro. Virei-me com os olhos embaçados e esbarrando em
todo mundo. Enquanto subia as escadas tentando sair dali, pensei
em Deus e entendi que Ele apenas havia tentado amenizar meu sofrimento
com a notícia do noivado, talvez para já ir me preparando
para a surpresa.
Cambaleando
de dor, caí no chão do banheiro, ao lado da segunda
privada, da esquerda para a direita. Os seguranças me levantaram
e me colocaram sentado na privada, pensando que eu estivesse bêbado.
Fiquei sentado no vaso durante horas, na mesma posição,
com lágrimas escorrendo pelo rosto e olhando para frente.
A porta aberta fez com que eu virasse uma espécie de fantoche
em exposição.
Alguns
olhavam e riam. Outros me cercavam para ver se eu era de verdade
ou se estava morto. Comentavam, aos risos, que estava bêbado
ou drogado. Alguns nem me enxergavam ali e se não fossem
os seguranças, por duas vezes urinariam em minha cabeça.
Eu não me movia.
Até
que alguns amigos me acharam e riram muito. Levaram-me para baixo.
Quando
desci, fiquei muito feliz. No centro da festa, dando show, o Laurindo
estava abraçado beijando minha namoradinha e tomando minha
cerveja.
Meus
amigos me soltaram e saíram correndo atrás de algumas
mulheres. Caí de cara no chão e lá fiquei.
As
pessoas se incomodaram porque caí perto da passagem junto
ao caixa. Então, alguém reclamou com os seguranças
e eles vieram me buscar. Cada um pegou em um braço e foram
me levando para fora. Minhas pernas quase não tocavam o chão
e se arrastavam imóveis. Como meus sapatos não eram
de amarrar, perdi um deles no caminho. Tentei me livrar dos seguranças
apenas com a intenção de voltar para pegá-lo.
Por causa disso, levei dois tapas no rosto e uma cotovelada na boca,
que me fizeram desmaiar por uns cinco segundos. Um de meus amigos
viu aquela cena, o Varti. Largou a mais nova mulher padrão
de danceteria que ele acabara de conhecer e veio voando para cima
dos seguranças:
— Soooooltaaaaa eleeeeee!!!!
E agarrou o braço do que me deu a cotovelada. Todos os meus
amigos também apareceram... E todos os outros seguranças
também, que puderam treinar em nós, todas as selvagerias
que você conseguir imaginar e se divertiram muito, com seus
socos, pontapés, tapas na cara, puxões de cabelo e
tudo mais...
Eu
ia de um lado para outro da casa. Minha calça rasgou na lateral
e o sapato passou a ser o de menos. Meus amigos me puxavam de um
lado e os seguranças do outro. A camisa de seda do Varti
rasgou e riria muito se não fosse nossa situação.
Até que caí no chão e alguém pisou na
minha cabeça. A dor foi tão forte que não resisti.
Dizem que desmaiei durante meia hora. Não me lembro do que
aconteceu na danceteria depois da camisa do Varti. Mas lembro-me
até hoje do que senti enquanto estava desacordado. Queria
estar o mais longe possível dali. E o mais longe possível
era estar com ela...
A
vi chegando, no início um pouco embaçado... depois
mais próxima... sim... era ela. A primeira imagem que tive
da Débora em minha vida, com seu vestido branco e o marcante
sorriso delicado, vindo em minha direção. Imagem que
guardava no mais íntimo que podia alcançar, com todo
o carinho do mundo. Minha prima, Amanda, nos apresentou. Eu tremia
o corpo todo. Tudo me encantava. Seu corpo delineado, seus cabelos
longos e escuros, os olhos azuis, seu formato sensual e o jeito
delicado, feminino e inteligente de ser.
Mesmo
assim, não foi amor à primeira vista. Dias e dias
de conversa e reflexões, com ela deitada no meu colo, ajudaram
a nos deixar cada vez mais envolvidos, até que o amor aconteceu...
Voei
no meu desmaio para anos depois, em um dia na praia, quando disse
com muita timidez, que pretendia me casar com ela... Nunca havia
sequer passado perto de sonhar isso com outra pessoa. Sua felicidade
foi tão grande que pulou nas minhas costas com tanta força,
que nos esborrachamos no chão.
Nossa
dança nas ruas de Amsterdã e Paris... as milhares
de cartas que me escreveu... Caiam, uma a uma em frente aos meus
olhos, como se fosse uma chuva de palavras de amor...
Depois
vieram os dias de humilhação... e a dor do seu abandono,
como a última vez que a vi, fechando a porta de seu apartamento
bem devagar, enquanto a observava no corredor... com todo o meu
amor, apertando meu peito.
Ela
se afastava... como uma vez o fez em frente a sua faculdade, me
deixando sozinho no jardim... se afastava sem olhar para trás,
em direção à faculdade. Caí de joelhos
e me deitei na grama de um shopping próximo, chorando como
criança, por não saber mais como lutar...
E como
se o tempo não houvesse passado, senti a mão de um
amigo no meu ombro:
—
Evandro! Acorda! Meu Deus! O que fizeram com você? Vamos...
vamos te levar para o hospital... – disse o Varti com sua
camisa de seda rasgada e um olho inchado.
— Não... não... o meu sapato... – balbuciei
quase desacordado.
—
Esquece o sapato, vamos embora antes que esses débeis mentais
voltem a nos atacar.
Eu
não estava nem aí comigo. Estava preocupado com outra
coisa. Mesmo assim, fomos, fizemos os curativos, prestamos queixa
(que não adiantou nada) e voltamos para São Paulo.
No caminho, todos nós devidamente remendados, voltamos em
silêncio no meu Chevette verde-kiwi-espaçonave, que
peguei feliz da vida de volta como parte do pagamento de uma dívida,
depois que o cara que o havia comprado ficou devendo no posto de
gasolina do meu pai. Eu nem me atrevi a dizer para meus amigos que
aquele meu estado inicial no banheiro da discoteca era por causa
da Débora. Eles estão descobrindo isso agora, junto
com você. Na época me matariam (ou acabariam de me
matar).
Cheguei
em casa e deitei-me na cama, desolado. E agora? O que eu poderia
fazer? A perderia para sempre? Chegou o momento de parar de lutar?
Por que ela ainda me incomodava? Por que me abalei tanto com a notícia?
Como podia amá-la depois de tanto desprezo?
Todas
essas perguntas rodavam em meio a minha dor e lembranças
de nossos momentos de amor, que teimavam em superar meu desafeto
por ela...
Os dias se arrastavam... lembro-me de que muitas vezes, no trabalho,
empurrava os papéis para frente e debruçava-me sobre
a escrivaninha. Tinha vontade de chorar, mas nem isso eu conseguia
mais. Foram dias e dias com a cabeça no ar... ora sem pensar
em nada... ora sentindo-me o último dos seres... A cada dia,
ao acordar, lamentava por voltar à minha triste realidade.
Normalmente quando isso acontece, temos vontade de dormir o dia
todo e quando podia, era isso que fazia como fuga.
No entanto, parecia haver alguma coisa errada. Um sentimento de
que as coisas não se encaixavam brotou dentro de mim e aumentava
a cada dia. Não era possível que ela tivesse se casado
tão rapidamente depois do noivado. Teria engravidado? Até
nisso pensei, mas dona Verusca, minha famosa ex-sogra, tinha me
dito que não, que achava ser uma precipitação
da Débora, mas que estava tudo normal. Sim; o noivado era
uma precipitação, de fato, mas e o casamento?
Não...
havia alguma coisa estranha nisso tudo. E minhas suspeitas (para
seu futuro divertimento e alegria com o que eu ainda teria chance
de fazer) se mostrariam corretas...
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